Entre teorias e bytes


A imprensa influencia as eleições?

Posted in Théories / Débats by fabiohp on the September 19, 2006

Um breve exercicio teorico sobre o assunto : )

Pergunta semelhante foi feita ao jornalista político Franklin Martins na ediçao numero 12 do Mídia & Política (clique aqui para ler a entrevista). A resposta do jornalista – “A mídia até influencia, mas quem decide a eleição é o eleitor” –  pode refletir um certo simplista, uma desculpa para tirar o corpo fora. Mas é bom ponto de partida para nossa discussão.

O fato é que os debates sobre o papel político da imprensa tendem a negligenciar o que acontece quando a notícia chega do outro lado do processo, ou seja, no leitor. Esquecemos freqüentemente que a os jornais, enquanto instituiçoes não votam. E que numericamente os jornalistas não decidiem uma eleição. Cometemos o pecado de agrupar os verdadeiros atores desse processo, os eleitores, numa massa disforme chamada “opinião publica”.

Num artigo provocador e extremamente lúcido, o sociólogo francês Pierre Bourdieu enunciou de forma taxativa que “A opinião pública não exisite”. E não exisite de fato. Eu, pelo menos, nunca fui apresentado a ela ou ao seu representante. Trata-se de um conceito abstrato, de um modelo teórico que auxilia certas pessoas no trabalho de leitura e interpretaçao do mundo. A gente a objetiva como se fosse “real”, mas ela serve a diferentes apropriações, a diferentes usos, seja para fazer a fortuna dos institutos de pesquisa; seja para ser utilizada como argumento para legitimar os interesses (escusos ou não) de jornalistas, politicos e pesquisadores.

Ou seja, se estamos falando de jornalismo e comportamento eleitoral, acho melhor esquecer por um momento a tal de opinião pública e nos centrarmos no que é importante: o eleitor, o cidadão. E a relação que a imprensa tem com o seu leitor não pode ser vista como uma imposição mecânica de um opinião, de um voto. Ela consiste, sobreutdo, num diálogo. Na verdade, desde os anos 1980, alguns autores de peso (Staurt Hall, Jésus Martín Barbero, etec) vêm falando da importância de se estudar o processo comunicativo dentro de uma perspectiva dialógica. Quer dizer: quando escutamos uma notícia ou um comentário, intergimos com ela, de forma análoga a quando conversamos com o vizinho da frente. Se me perguntarem qual a influência do vizinho da frente na minha tomada de decisão política, eu vou responder: “Depende”. Depende da opinião que eu tenho sobre o meu vizinho. Eu posso considerá-lo um sujeito culto ou um completo idiota. Ou posso achar que, em certos assuntos, é interessante escutá-lo, mas que, em outros, é melhor preservar minha própria opinião. Ou posso apenas fingir que estou escutando sem entender lhufas do assunto.

Toda interação – seja com o vizinho, com o meu chefe ou com o artigo publicado num jornal –  é dialógica e situacional. Obviamente, que as proporções são outras. A diálogo que você tem o seu vizinho costuma ser mais “personlizado” do que com a mídia. Os jornais, mesmo com essa moda de interatividade não costumam ser tão sensíveis aos argumentos dos leitores. É possivel também que as pessoas atribuam grande relevância à fala de um jornalista sobre a questão eleitoral. O efeito paleto e gravata é importante nessas ocasiões . Finalmente, os meios de comunicação costumam estar mais presentes na vida das pessoas, eles “conversam mais do que a gente”,  do que muitos dos nossos com os vizinhos. Confesso que essa costuma ser uma tática bem incisiva de convencimento. Mas a verdade é que o processo de tomado de deciões políticas é muito mais complexo que imaginamos. E a real influênca da mídia é sutil e requer pesquisas e pesquisas antes de ficarmos colocando imprensa e jornalistas num pedestal.

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